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Arqueólogos reconstroem jornada de humanos e cão em caverna da Era do Gelo

Um grupo humano do período Epigravettiano percorreu passagens subterrâneas na atual Itália há cerca de 14,4 mil anos utilizando galhos de pinheiro como fonte de iluminação. A conclusão resulta de pesquisas conduzidas na Caverna Bàsura, na região da Ligúria, que preserva pegadas humanas, vestígios de um canídeo e marcas de carvão deixadas durante a exploração do local. O estudo foi publicado em 2026 e reuniu análises arqueológicas, experimentos de campo e exames de sedimentos para reconstruir a jornada realizada durante os últimos estágios da Era do Gelo.


Pesquisadores envolvidos no projeto multidisciplinar “Bàsura Revisited” reconstruíram os métodos utilizados por habitantes do Paleolítico Superior para percorrer o interior da Caverna Bàsura, localizada nas proximidades da cidade de Toirano, no norte da Itália. O trabalho combinou estudos de pólen, análises de carvão vegetal, escavações arqueológicas e testes experimentais para compreender como um pequeno grupo conseguiu atravessar cerca de 800 metros de galerias subterrâneas.


A caverna preserva um conjunto de evidências arqueológicas composto por pegadas humanas fossilizadas, rastros atribuídos a um canídeo que acompanhava o grupo, marcas de carvão espalhadas pelas paredes e pelo teto e restos de ursos-das-cavernas acumulados em diferentes setores do sistema subterrâneo.


Os primeiros estudos realizados no local ocorreram durante a década de 1950. Naquele período, parte dos pesquisadores atribuiu as pegadas aos neandertais. Décadas depois, análises por radiocarbono demonstraram que a visita ocorreu durante o período Epigravettiano, aproximadamente 14,4 mil anos atrás, quando grupos humanos ocupavam a região ao final da última glaciação.

Em 2016, arqueólogos lançaram o projeto “Bàsura Revisited” com o objetivo de reexaminar a caverna por meio de técnicas modernas. As pesquisas concentraram-se no chamado “Salão dos Mistérios”, área onde já haviam sido identificadas pegadas humanas, marcas digitais e resíduos de carvão vegetal.


Para reconstruir o ambiente existente no momento da visita, os pesquisadores coletaram amostras de pólen preservadas nos sedimentos da caverna. Os resultados indicaram uma paisagem composta por áreas abertas de vegetação estepe e formações dispersas de pinheiros. Entre as plantas identificadas estavam espécies adaptadas a temperaturas baixas e condições secas, incluindo representantes do gênero Artemisia e membros da família das margaridas. O pólen arbóreo apareceu em menor quantidade, sendo representado principalmente pelo pinheiro-silvestre.


Os estudos apontaram também que parte do material vegetal chegou ao interior da caverna transportado por ursos-das-cavernas. Os animais carregavam grãos de pólen aderidos aos pelos durante seus deslocamentos e períodos de hibernação. A infiltração de água proveniente do exterior também contribuiu para a deposição de matéria orgânica nos sedimentos.


As evidências mais relevantes sobre a presença humana surgiram a partir da análise de fragmentos de carvão vegetal encontrados no Salão dos Mistérios. Os pesquisadores identificaram 56 fragmentos, dos quais mais da metade foi associada ao pinheiro-silvestre ou a espécies relacionadas. A maior parte dos vestígios correspondia a galhos jovens com diâmetro inferior a dois ou três centímetros. Apenas uma parcela reduzida pertencia a peças de madeira de maior espessura.


Os resultados levaram os pesquisadores a questionar a hipótese tradicional segundo a qual os visitantes utilizavam tochas de grandes dimensões para iluminar o percurso subterrâneo. As evidências sugerem que o grupo transportava pequenos galhos de pinheiro retirados de árvores vivas e preparados para funcionar como fontes móveis de iluminação.


Para verificar essa hipótese, a equipe realizou experimentos em uma caverna com características semelhantes às da Bàsura. Galhos de pinheiro-silvestre compatíveis com os encontrados no sítio arqueológico foram secos e queimados sob condições controladas. Cinco voluntários participaram dos testes, número compatível com a quantidade de indivíduos identificados pelas pegadas preservadas no interior da caverna.


Durante os experimentos, os pesquisadores avaliaram intensidade luminosa, duração da combustão, consumo de combustível e mobilidade dos participantes. Os resultados mostraram que apenas dois galhos acesos permitiam a locomoção de cinco pessoas em fila. Após adaptação dos olhos à escuridão, a visibilidade alcançava aproximadamente dez metros.


Os testes também demonstraram que os galhos produziam quantidade reduzida de fumaça em comparação com tochas convencionais. A configuração considerada mais eficiente consistia na manutenção de uma fonte de luz à frente do grupo e outra na retaguarda. Os participantes frequentemente mantinham contato físico colocando a mão sobre o ombro da pessoa à frente para atravessar passagens estreitas e áreas com desníveis.


O consumo de combustível registrado chamou atenção da equipe. Cada galho queimava cerca de quatro centímetros por minuto durante o deslocamento. A partir desses dados, os pesquisadores calcularam que seriam necessários aproximadamente vinte galhos com trinta centímetros de comprimento para completar o trajeto entre a entrada da caverna e o Salão dos Mistérios, incluindo a viagem de retorno. O percurso completo teria duração próxima de duas horas.


Outro resultado obtido pelos experimentos envolveu as marcas deixadas pelo carvão nas superfícies da caverna. Os padrões produzidos durante os testes coincidiram com aqueles encontrados nas paredes da Bàsura. Fragmentos de carvão acumulados abaixo das marcas reproduziram a mesma disposição observada nas escavações arqueológicas.


De acordo com o estudo, os grupos humanos que visitaram a região desenvolveram um método baseado em recursos disponíveis na paisagem local. Os pinheiros identificados nos levantamentos palinológicos forneciam material combustível para deslocamentos prolongados dentro das galerias subterrâneas.


Os pesquisadores também localizaram fragmentos de carvão presos em formações calcárias de outros setores da caverna. As datações realizadas indicaram que esses vestígios pertencem a períodos distintos daquele associado às pegadas humanas e ao canídeo. Segundo os autores do estudo, os resultados sugerem que a Caverna Bàsura continuou recebendo visitas humanas em épocas posteriores.


A pesquisa foi divulgada por Giovanna Gomes no portal Aventuras na História em 8 de junho de 2026, com base em estudo publicado na revista Quaternary International e em informações divulgadas pelo portal Archaeology News.

 
 

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