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Gwyneth Paltrow suaviza debate sobre guerra em conversa com fabricante de drones militares

Trae Stephens, cofundador da fabricante de armas Anduril, declarou no podcast Goop que considera imoral o lucro obtido com a guerra, mesmo enquanto sua empresa fatura bilhões de dólares com contratos do Pentágono. Durante a conversa, a atriz e empresária Gwyneth Paltrow ajudou Stephens a relativizar o peso moral de seu negócio, recorrendo a interpretações místicas do cristianismo para neutralizar uma crítica direta do Papa à indústria bélica. O episódio expõe a fusão entre o discurso do bem-estar e o complexo industrial-militar estadunidense, em um contexto de guinada à direita no Vale do Silício.


Foto: Ben Birchall_PA Wire_Zuma
Foto: Ben Birchall_PA Wire_Zuma

Na última semana, o podcast Goop, comandado por Gwyneth Paltrow, recebeu Trae Stephens, cofundador da Anduril, empresa que desenvolve drones de ataque, submarinos não tripulados, torres de vigilância para fronteiras, mísseis e tecnologia de “campo de batalha inteligente” - sistemas projetados para matar com maior eficiência e menor custo do que armas convencionais. A entrevista, de cerca de uma hora, foi relatada pela revista Mother Jones.


Stephens, que acumulou bilhões com o setor armamentista, afirmou: “não acredito que lucrar com a guerra seja ético, de fato, de forma alguma”. A declaração contrasta com o portfólio da Anduril, que inclui o drone Bolt - um sistema de ataque unidirecional portátil, testado em um campo de treinamento na Finlândia, perto da fronteira russa - e contratos ativos com o Pentágono.


Paltrow demonstrou empenho em tornar a tecnologia militar palatável para a audiência abastada e focada em bem-estar do Goop. A apresentadora recorreu à própria experiência pessoal: “Nunca vou esquecer de me mudar para Nova York para começar o sétimo ano, no auge da Guerra Fria, e ficar apavorada à noite achando que os russos iriam nos bombardear”. A fala serviu para justificar o apoio ao fortalecimento do arsenal militar estadunidense.


Ao longo do diálogo, Stephens revelou preocupação com a imagem que os filhos terão de sua profissão: “sem sentir que estão nessa estranha zona crepuscular em que precisam defender constantemente o que o pai faz para viver”. A resposta de Paltrow flertou com o relativismo moral: “Nós, seres humanos, somos complicados. Temos todos os tipos de gradações de luz e escuridão. E, sabe, estamos sempre lutando com o lobo bom e o lobo mau dentro de nós, até certo ponto”.


A conversa ganhou contornos mais controversos quando a religião entrou em pauta. Stephens, cristão devoto, mencionou a homilia do Domingo de Ramos do Papa Leão XIV, na qual o pontífice declarou: “Jesus não escuta as orações daqueles que fazem a guerra”. O empresário admitiu o desconforto: “Você pode olhar para isso e dizer, uau, o que estou fazendo? O próprio Papa está me dizendo que o que faço é ruim”.


Diante do impasse, Paltrow ofereceu uma saída teológica sob medida. “Você poderia abordar isso de um aspecto mais místico do Cristianismo, em vez de interpretar literalmente”, sugeriu. “Esta é apenas uma hipótese aleatória. Me ocorreu agora. Se você usar como metáfora de alguém que está o tempo todo engajado em ‘contra-idade’, sabe. Poderia ser algo mais místico ou metafórico.” Stephens acolheu a reinterpretação e concluiu: “E então, se você abordar com um coração de paz, acho que é muito diferente em um nível místico do que abordar com um coração em guerra”.


A aproximação entre a estética new age e a indústria da defesa ocorre em paralelo a um movimento político mais amplo. O podcast de Paltrow ecoa a aliança entre setores do Vale do Silício e a direita estadunidense, simbolizada pela ascensão de figuras como Robert F. Kennedy Jr., que combina retórica anticiência com negócios bilionários. A Anduril, cujo nome remete à espada de um herói de fantasia, personifica essa convergência: drones Bolt foram exibidos em treinamentos em um local não revelado perto da fronteira da Rússia com a Finlândia, enquanto torres de vigilância da empresa reforçam o aparato de controle migratório na fronteira dos Estados Unidos.

 
 

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