OIT: futuro do trabalho não será definido só pela tecnologia
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- 9 de jun.
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A Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirmou que o impacto da inteligência artificial sobre o emprego dependerá de decisões políticas, normas trabalhistas e formas de distribuição dos ganhos de produtividade. A declaração foi feita em 4 de junho pelo diretor-geral da entidade, Gilbert F. Houngbo, durante a abertura da Conferência Internacional do Trabalho, realizada em Genebra. O encontro reúne representantes dos 187 Estados-membros da organização até 12 de junho para debater mudanças no mercado de trabalho provocadas pela digitalização, pela automação e pelas transformações econômicas em curso.

Ao abrir a conferência, Houngbo afirmou que o futuro do trabalho não será definido apenas pelo avanço tecnológico nem pelos interesses das empresas que controlam plataformas digitais, sistemas de inteligência artificial e infraestrutura de dados. Segundo ele, o resultado desse processo dependerá das políticas públicas adotadas pelos Estados, das instituições trabalhistas e das negociações entre governos, empregadores e trabalhadores. “O futuro do trabalho não será determinado apenas pela tecnologia, mas também pelas políticas, instituições e diálogo social que o orientam”, declarou o diretor-geral da OIT.
As declarações acompanham a divulgação do relatório da organização intitulado Um momento de escolha: aproveitar o potencial da inteligência artificial para o trabalho decente. O documento serve de base para as discussões da conferência e apresenta uma agenda estruturada em quatro áreas: direitos trabalhistas, emprego e qualificação profissional, proteção social e diálogo social.
Segundo Houngbo, o crescimento da produtividade gerado pela inteligência artificial não pode ficar concentrado nas corporações que controlam as tecnologias nem nos setores financeiros que financiam sua expansão. O dirigente da OIT afirmou que os trabalhadores devem participar dos benefícios econômicos produzidos pelas novas ferramentas digitais. “Esses ganhos precisam ser distribuídos de forma justa, por meio de melhores salários, proteção trabalhista mais robusta e um crescimento mais inclusivo”, afirmou.
A OIT sustenta que a negociação coletiva deverá ocupar posição central na regulamentação das transformações provocadas pela inteligência artificial. O organismo também defende mecanismos de supervisão humana sobre sistemas automatizados e estruturas de governança baseadas em transparência e responsabilização.
Durante o discurso, Houngbo afirmou que as decisões tomadas nos próximos anos determinarão se a inteligência artificial ampliará oportunidades econômicas ou aprofundará desigualdades já existentes no mercado de trabalho. “As escolhas que fizermos hoje determinarão se a IA ampliará as oportunidades e a prosperidade compartilhada ou se aprofundará as desigualdades e a insegurança”, declarou.
O debate ocorre em meio a disputas internacionais sobre o controle de tecnologias digitais, centros de processamento de dados, semicondutores e sistemas de inteligência artificial. O avanço dessas tecnologias está concentrado em um número reduzido de empresas sediadas em países do Norte Global, cenário que levanta discussões sobre concentração econômica, soberania tecnológica e dependência digital em países periféricos.
A OIT também relacionou a discussão sobre inteligência artificial ao quadro econômico internacional. Houngbo afirmou que o encontro acontece em um período marcado por instabilidade econômica e por impactos derivados das tensões geopolíticas em diferentes regiões.
“Nos reunimos em um momento de profunda incerteza. A economia global continua frágil e a crise no Oriente Médio emergiu como uma importante fonte de risco para trabalhadores, empresas e comunidades”, declarou.
De acordo com estimativas apresentadas pela organização, um cenário de manutenção de preços elevados do petróleo poderá provocar ainda em 2026 uma redução global de horas trabalhadas equivalente a 14 milhões de empregos em tempo integral. A projeção da OIT indica que esse número poderá alcançar o equivalente a 38 milhões de empregos em tempo integral até 2027.
A organização calcula ainda que as perdas acumuladas de renda do trabalho poderão atingir US$ 3 trilhões até 2027. Segundo a entidade, os efeitos deverão atingir com maior intensidade os Estados Árabes, produzindo também impactos econômicos em países da Ásia e do Pacífico.
Outro tema central da conferência será a regulamentação do trabalho em plataformas digitais. O Comitê de Elaboração de Normas realizará a segunda rodada de negociações voltadas à criação de instrumentos internacionais específicos para esse setor.
Caso aprovadas pelos Estados-membros da OIT, as novas normas serão as primeiras voltadas diretamente aos efeitos da digitalização sobre relações de trabalho, contratação, remuneração e proteção social em plataformas digitais.
A conferência também dedica uma agenda específica à igualdade de gênero. O Comitê de Discussão Geral examinará obstáculos enfrentados por mulheres no mercado de trabalho e avaliará políticas relacionadas às transformações tecnológicas, ambientais e demográficas.
Segundo a OIT, os debates buscarão identificar mecanismos capazes de impedir que processos de automação e digitalização reproduzam desigualdades já existentes em setores econômicos e ocupacionais.
Os delegados também discutirão temas relacionados ao diálogo social e ao tripartismo, modelo institucional da organização baseado na participação conjunta de governos, empregadores e trabalhadores. A pauta inclui mecanismos de negociação para enfrentar mudanças decorrentes da transformação digital e do aumento das desigualdades econômicas.
A Conferência Internacional do Trabalho segue até 12 de junho em Genebra, reunindo representantes governamentais, organizações empresariais e entidades sindicais dos 187 países integrantes da Organização Internacional do Trabalho.

































