top of page

LINHA PRIMEIRA

SEGUNDA LINHA

LINHA PRIMEIRA

SEGUNDA LINHA

Trump ressuscitou a estátua de um proprietário de escravos. Seu pedestal custou aos contribuintes US$ 527 mil

O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, destinou US$ 527.226 para instalar uma base destinada à estátua de Caesar Rodney na Freedom Plaza, em Washington. Documentos obtidos pela revista Mother Jones indicam que o valor pago foi quase o dobro da estimativa inicial elaborada pelo próprio governo. A operação integra o programa de comemorações do 250º aniversário da independência estadunidense, utilizado pela administração Trump para promover uma agenda de reabilitação de figuras históricas ligadas à escravidão e ao expansionismo colonial.


A estátua de Caesar Rodney, localizada na Freedom Plaza, ficava anteriormente em Wilmington, Delaware. Joe Milmoe/Departamento do Interior
A estátua de Caesar Rodney, localizada na Freedom Plaza, ficava anteriormente em Wilmington, Delaware. Joe Milmoe/Departamento do Interior

Documentos contratuais analisados pela Mother Jones revelam que o Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos, subordinado ao Departamento do Interior, desembolsou US$ 527.226 apenas para construir a base de sustentação da estátua de Caesar Rodney, um dos signatários da independência estadunidense e proprietário de pessoas escravizadas em Delaware. A escultura foi reinstalada em abril de 2026 na Freedom Plaza, área localizada nas proximidades da Casa Branca.


A documentação mostra que a estimativa inicial do próprio governo para a obra era de US$ 286.549. Ainda assim, a administração aprovou o pagamento de um valor quase duas vezes superior após modificar um contrato já existente, sem realizar processo competitivo de licitação.


Segundo os registros obtidos pela Mother Jones, o Serviço Nacional de Parques havia contratado em dezembro de 2025 a empresa Terra Constructs, da Virgínia, para executar uma reforma avaliada em cerca de US$ 7 milhões na Freedom Plaza. Em janeiro de 2026, o contrato foi alterado para incluir a instalação da estátua de Rodney.


A modificação ocorreu sem nova concorrência pública. Um funcionário do Departamento do Interior declarou à Mother Jones que o cronograma acelerado estava relacionado às comemorações do 250º aniversário dos Estados Unidos. “O trabalho foi acelerado para garantir que seja concluído antes do 250º aniversário da nossa nação”, afirmou. O mesmo funcionário acrescentou que os projetos em Washington deveriam ser concluídos antes de 4 de julho.


A justificativa foi contestada por Scott Amey, consultor jurídico da organização de fiscalização Project on Government Oversight. Segundo ele, o uso de mecanismos de urgência para elevar gastos públicos em projetos comemorativos não atende aos critérios previstos para situações emergenciais.


“Por definição, a urgência deve ser usada quando um atraso resultar em prejuízo grave para o governo”, declarou Amey. “É inconcebível pensar que uma estátua para uma celebração de feriado atenda a esse padrão.”


Caesar Rodney ocupa lugar de destaque na narrativa oficial da independência estadunidense. Em julho de 1776, ele percorreu cerca de 130 quilômetros para participar da votação que aprovou a separação das treze colônias da Grã-Bretanha. Seu voto permitiu que Delaware apoiasse a resolução de independência apresentada ao Segundo Congresso Continental.


A estátua instalada atualmente em Washington retrata Rodney realizando a viagem montado a cavalo. Contudo, Jonathan Russ, professor de História da Universidade de Delaware, afirmou à Mother Jones que há indícios de que parte do trajeto tenha sido feita de carruagem.


“Provavelmente se romantizou a ideia de que ele fez toda a viagem a cavalo”, afirmou Russ.


A escultura foi inaugurada originalmente em 4 de julho de 1923, na cidade de Wilmington, Delaware. Em junho de 2020, durante os protestos desencadeados após o assassinato de George Floyd, a prefeitura determinou sua remoção. A decisão ocorreu em meio ao questionamento de monumentos dedicados a figuras associadas à escravidão e ao colonialismo.


Rodney apresentou em 1776 uma proposta para proibir a importação de pessoas escravizadas para Delaware. Ao mesmo tempo, registros históricos apontam que ele próprio manteve sob escravidão até 200 pessoas ao longo de sua vida.


A retirada da estátua em 2020 tornou-se alvo da campanha política de Donald Trump contra iniciativas de revisão crítica da história dos Estados Unidos. Naquele ano, Trump classificou tais movimentos como resultado de um “revisionismo histórico anti-americano extremo”.


Durante seu segundo mandato, a recuperação de monumentos ligados à narrativa tradicional da fundação estadunidense tornou-se parte central das comemorações do bicentenário e meio da independência. Além da reinstalação da estátua de Rodney, o governo colocou nos jardins da Casa Branca uma réplica de uma estátua de Cristóvão Colombo que havia sido derrubada por manifestantes em Baltimore em 2020.


Em maio de 2026, Trump anunciou também a construção de um “Jardim dos Heróis Americanos” no West Potomac Park, próximo ao Monumento de Washington. Segundo a Casa Branca, o espaço reunirá 250 estátuas de personagens considerados fundamentais para a história nacional.


O programa de monumentos e reformas urbanas ocorre paralelamente à solicitação feita pela administração Trump ao Congresso para a criação de um fundo de US$ 10 bilhões destinado ao embelezamento das áreas administradas pelo Serviço Nacional de Parques na região da capital federal.


Ao mesmo tempo, a própria agência solicitou apenas US$ 3 bilhões para manutenção e reparos dos parques nacionais espalhados pelo restante do país durante o exercício de 2027. Nos últimos doze meses, o Serviço Nacional de Parques perdeu mais de 2.000 funcionários em decorrência de programas de demissão voluntária, aposentadorias e cortes de pessoal.


A Mother Jones também informou que o governo utilizou procedimentos semelhantes para acelerar contratos destinados à recuperação de fontes e espaços públicos em Washington antes das celebrações de 4 de julho. Reportagem do New York Times apontou que esses contratos foram concedidos por meio de dispensas de licitação fundamentadas em alegações de urgência administrativa.


O retorno da estátua de Rodney a um espaço público teve origem em uma campanha iniciada em 2022 pelo senador estadual republicano Eric Buckson. Após concluir que a escultura dificilmente retornaria a Wilmington, Buckson buscou alternativas junto ao Serviço Nacional de Parques.


Posteriormente, a organização America 250, encarregada pelo Congresso de coordenar eventos relacionados ao aniversário da independência, passou a discutir a transferência temporária da obra para Washington.


Questionado pela Mother Jones sobre o passado escravista de Rodney, Buckson declarou: “Basta contar a verdade e decidir como queremos que ela seja apresentada. Acho que podemos fazer as duas coisas. Eu sei que podemos.”


Em documento datado de 6 de abril de 2026, a gerente responsável pelo projeto reconheceu que o governo não possuía tempo para renegociar o valor cobrado pela empresa contratada. Segundo o texto, “dada a restrição de tempo imediata”, não seria do interesse da administração atrasar o trabalho com novas negociações.


Os registros analisados pela Mother Jones indicam que a instalação física da estrutura levou menos de um dia para ser concluída. No mesmo documento, a gerente do projeto justificou o gasto afirmando que, “dada a natureza acelerada do projeto”, um preço mais elevado poderia ser aceito.

editora
clandestino

Ao adquirir um de nossos arquivos, você contribui para a expansão de nosso trabalho.

MAIS VENDIDOS

JORNAL CLANDESTINO

Se você está lendo

ainda há esperança

bottom of page