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Trump transforma Copa em palco de constrangimentos e perseguição migratória

A realização da Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos tem sido marcada por denúncias de retenções, deportações, negativas de visto e abordagens contra atletas, árbitros, jornalistas e torcedores de países da Ásia, África e América Latina. Relatos envolvendo a delegação iraniana, profissionais da imprensa e representantes de seleções participantes ampliaram o desgaste da organização do torneio e colocaram em evidência a política migratória do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. As medidas adotadas por autoridades estadunidenses provocaram questionamentos sobre as condições oferecidas pelo principal país-sede da competição organizada pela Fifa.


O presidente Donald Trump segura o troféu da Copa do Mundo da FIFA durante um anúncio no Salão Oval da Casa Branca em 22 de agosto de 2025. | Foto: Jacquelyn Martin/AP
O presidente Donald Trump segura o troféu da Copa do Mundo da FIFA durante um anúncio no Salão Oval da Casa Branca em 22 de agosto de 2025. | Foto: Jacquelyn Martin/AP

Desde o início do torneio, episódios relacionados a controles migratórios e procedimentos de segurança passaram a ocupar espaço semelhante ao das partidas disputadas em campo. Entre os casos que receberam maior repercussão está o da seleção do Irã, submetida a restrições que afetaram deslocamentos, hospedagem e preparação esportiva.


Após o empate por 2 a 2 contra a Nova Zelândia, em 15 de junho, o atacante Mehdi Taremi e o auxiliar técnico Saeed Al-Hawie foram retidos no Aeroporto Internacional de Los Angeles por questões documentais. O episódio atrasou o retorno da delegação para Tijuana, no México, cidade utilizada como base de treinamento da equipe durante a competição.


Além das dificuldades logísticas, integrantes da delegação iraniana relataram restrições relacionadas à permanência nos Estados Unidos após os jogos. Segundo os relatos, a equipe foi obrigada a deixar o território estadunidense logo após suas partidas, limitando períodos de recuperação física e preparação para os confrontos seguintes.


As reclamações foram levadas diretamente ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, que visitou o vestiário iraniano após o jogo contra a Nova Zelândia. Durante o encontro, o técnico Amir Ghalenoei relatou dificuldades enfrentadas pela delegação.


“Nós deveríamos ter vindo para Los Angeles duas noites antes do jogo, mas não nos permitiram. Também deveríamos passar a noite aqui para nos recuperarmos e retornar na hora do almoço, mas, mais uma vez, não nos permitiram. Sinceramente, não faço ideia do motivo. Ninguém nos explicou. Acredito que talvez a nossa equipe seja a mais oprimida de toda a Copa do Mundo”, declarou o treinador.


Os episódios envolvendo o Irã ocorreram em um contexto mais amplo de restrições. Integrantes da comissão técnica e dirigentes ligados à federação iraniana relataram negativas de visto, revogações de ingressos e interrogatórios realizados por agentes migratórios.


Outras delegações também registraram ocorrências. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan teve a entrada nos Estados Unidos negada e acabou deportado. O atacante iraquiano Aymen Hussein foi submetido a sete horas de interrogatório antes de receber autorização para ingressar no país.


O atacante suíço Breel Embolo também enfrentou obstáculos. Seu visto foi negado inicialmente, o que atrasou sua incorporação à seleção da Suíça. A autorização só foi emitida após repercussão pública do caso. Situação semelhante atingiu Woodensky Pierre, do Haiti.


Em outro episódio que repercutiu entre dirigentes esportivos, integrantes da Federação Senegalesa de Futebol foram submetidos a revistas ainda na pista de pouso do aeroporto de Raleigh, na Carolina do Norte. Embora representantes da entidade tenham afirmado que o procedimento estava previsto devido ao caráter fretado do voo, imagens do momento circularam nas redes sociais e provocaram críticas pelo tratamento dispensado aos atletas.


Questionamentos semelhantes surgiram após a seleção do Uzbequistão passar por revista corporal, inspeção de bagagens e utilização de cães farejadores durante deslocamento em Nova York antes de um amistoso preparatório para a Copa. O Ministério das Relações Exteriores do país solicitou esclarecimentos às autoridades estadunidenses, destacando que os jogadores da seleção da Holanda não foram submetidos ao mesmo procedimento.


Em 15 de junho, a delegação do Uruguai também teve bagagens inspecionadas antes da partida contra a Arábia Saudita, encerrada em empate por 1 a 1.


A repetição dos casos alimentou críticas sobre a existência de um padrão direcionado a participantes oriundos de países asiáticos, africanos e latino-americanos, além de atletas negros de diferentes nacionalidades.


As denúncias alcançaram também o setor de comunicação. Profissionais de imprensa credenciados pela Fifa relataram negativas e cancelamentos de vistos, sobretudo entre jornalistas africanos e iranianos que pretendiam cobrir a competição.


Uma das situações de maior repercussão envolveu a jornalista brasileira Karine Alves, da TV Globo. Durante procedimento de fiscalização migratória, ela relatou ter sido submetida a uma inspeção em seu cabelo por agentes de fronteira. A jornalista tornou pública a experiência e afirmou que o episódio reproduz práticas enfrentadas por mulheres negras em diferentes contextos.


As críticas à condução do torneio não se restringem aos episódios registrados durante a competição. Antes mesmo do início da Copa, integrantes da força-tarefa criada pela Casa Branca para acompanhar o evento alertaram torcedores estrangeiros para que não permanecessem no país após o vencimento de seus vistos.


A mensagem foi reforçada pelo vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, em declarações interpretadas por organizações de direitos civis como sinalização de endurecimento migratório durante o torneio.


O ambiente de pressão ganhou mais relevância diante da continuidade das operações do ICE, a agência migratória estadunidense, durante a Copa. Um relatório divulgado pela organização Human Rights Soccer Alliance apontou que agentes utilizaram partidas de futebol realizadas em 2025 para identificar e deter imigrantes.


O debate sobre a relação entre futebol, política e poder também alcançou personagens ligados ao esporte. O técnico da seleção uruguaia, Marcelo Bielsa, chamou atenção ao aparecer olhando para o chão em vídeos promocionais produzidos pela Fifa para apresentação das seleções.


Questionado sobre a atitude, Bielsa respondeu: “Não tenho que dar explicação. Eles tiraram a foto. Não sou um modelo”.


Conhecido por críticas à exploração comercial do futebol e ao calendário de competições, o treinador argentino tornou-se referência para setores que contestam a relação entre grandes entidades esportivas e governos. Sua postura durante a Copa passou a ser interpretada por parte dos torcedores como um gesto de distanciamento em relação à condução política e institucional do torneio realizado sob a administração do governo Trump.

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