Guterres visita Haiti e diz que país não está só na luta contra violência
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- 18 de jun.
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O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou em 16 de junho que o Haiti enfrenta a crise humanitária mais grave do Hemisfério Ocidental e a que apresenta a deterioração mais acelerada. Durante visita a Porto Príncipe, ele declarou que a comunidade internacional não pode continuar ignorando a situação do país caribenho, marcado por violência armada, deslocamentos internos e insegurança alimentar. A visita ocorreu em meio ao avanço de grupos armados sobre áreas urbanas, ao déficit de financiamento humanitário e às discussões sobre o fortalecimento da força internacional presente no país.

Falando a jornalistas na capital haitiana, Guterres afirmou que o Haiti vive uma emergência que ultrapassa os números estatísticos apresentados pelas organizações internacionais. Segundo ele, existe uma população que continua resistindo à violência apesar da deterioração das condições de vida.“O mundo não tem o direito de desviar o olhar”, declarou o secretário-geral da ONU ao apresentar sua avaliação sobre a situação haitiana.
Guterres afirmou que a insegurança permanece como elemento central da crise. Segundo ele, grupos armados expandiram sua presença territorial, provocando deslocamentos de famílias, interrupção de atividades econômicas e enfraquecimento das estruturas estatais.
A crise de segurança afeta diretamente mulheres e crianças. Dados apresentados durante a visita apontam que o número de menores recrutados por grupos armados triplicou em apenas um ano. Essas crianças enfrentam interrupções no acesso à educação, à proteção social e a serviços básicos.
A violência contra mulheres também aparece entre os indicadores destacados pelas Nações Unidas. Segundo Guterres, mais de 20 mulheres e meninas são vítimas de agressões diariamente no país.
A deterioração das condições sociais ocorre paralelamente ao agravamento da crise humanitária. Atualmente, quase 6 milhões de haitianos enfrentam insegurança alimentar severa, enquanto aproximadamente 1,5 milhão de pessoas foram deslocadas internamente em consequência da violência.
As Nações Unidas estimam que 6,4 milhões de habitantes necessitam de assistência humanitária, número que representa mais da metade da população do Haiti. Desde o início de 2026, a violência deixou mais de 2,3 mil mortos e cerca de 1,1 mil feridos.
Durante a visita, Guterres chamou atenção para a insuficiência dos recursos destinados à resposta humanitária. Segundo dados da ONU, apenas 25% dos recursos necessários para alcançar a meta de US$ 880 milhões prevista no Plano de Resposta Humanitária foram obtidos até o momento.
O secretário-geral destacou o trabalho realizado por agências internacionais e organizações humanitárias que atuam no território haitiano. Segundo ele, a maior parte desses trabalhadores é composta por haitianos que continuam prestando assistência apesar da deterioração das condições de segurança.
No último ano, essas organizações forneceram ajuda humanitária a cerca de 3 milhões de pessoas, segundo dados apresentados pela ONU.
Guterres afirmou que o Haiti não solicita caridade internacional. Segundo ele, o país exige o cumprimento dos compromissos assumidos pela comunidade internacional diante da crise.
O secretário-geral também declarou que a violência armada não constitui o único problema enfrentado pela população haitiana. Para ele, a ausência de respostas internacionais durante anos contribuiu para o aprofundamento da crise.
A atual situação do Haiti possui raízes históricas que antecedem o cenário contemporâneo de violência. Após protagonizar, em 1804, a única revolução de escravizados vitoriosa da história moderna e derrotar o colonialismo francês, o país passou a enfrentar isolamento diplomático, sanções econômicas e mecanismos de dependência financeira impostos por potências estrangeiras. Ao longo dos séculos XIX e XX, intervenções militares, ocupações estrangeiras e estruturas econômicas subordinadas condicionaram o desenvolvimento do Estado haitiano.
Nas últimas décadas, missões internacionais, programas de ajuste econômico e crises políticas sucessivas coexistiram com a deterioração das condições sociais. O atual quadro de violência armada se desenvolve nesse contexto de fragilidade institucional, desigualdade social e dependência econômica.
Durante sua passagem por Porto Príncipe, Guterres afirmou identificar sinais de recuperação em algumas áreas da capital. Segundo ele, determinados bairros estão sendo retomados e estruturas estatais voltaram a operar em partes do território anteriormente controladas por grupos armados.
Para consolidar esse processo, o secretário-geral apresentou uma estratégia baseada em três eixos. O primeiro consiste no fortalecimento da segurança por meio da atuação da Força de Supressão de Gangues, apoiada logisticamente pelas Nações Unidas e por governos participantes da missão internacional.
O segundo eixo envolve a transição política conduzida por lideranças haitianas. Segundo Guterres, o processo deve envolver atores políticos e organizações da sociedade civil para viabilizar eleições e restaurar a governabilidade institucional.
O terceiro componente apresentado durante a visita está relacionado à criação de alternativas econômicas para a juventude haitiana. A proposta envolve investimentos em emprego, educação, saúde e recuperação econômica como forma de reduzir o recrutamento de jovens por grupos armados.
Ao comentar o futuro do país, Guterres afirmou que o Haiti possui recursos humanos e culturais capazes de sustentar um processo de reconstrução nacional. Ele mencionou a juventude haitiana, a diáspora e a trajetória histórica do país.
O secretário-geral recordou a Batalha de Vertières, travada em 1803, quando revolucionários haitianos derrotaram o exército colonial francês, abrindo caminho para a independência do país. “Esse mesmo espírito vive hoje”, afirmou.
No primeiro dia da visita, Guterres esteve em um acampamento de deslocados internos. Em seguida, reuniu-se com integrantes da força internacional destacada para apoiar operações de segurança e discutir mecanismos de apoio logístico.
O secretário-geral também manteve encontro com o primeiro-ministro haitiano, durante o qual defendeu rapidez na transição política e reafirmou que cabe aos haitianos definir os rumos do país.

































